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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O problema não é o dia de São Valentim

O problema é viver os outros dias do ano quando

- bato com o dedo mindinho do pé no órgão que vive entre a sala e a marquise várias vezes no mesmo dia,
- lhe grito 567784 vezes para que acorde, ele abrir ligeiramente os olhos, e adormecer novamente entre rosnadelas,
- faz a Av. Lusíada como se fosse uma pista de fórmula um,
- lhe peço 6785764 vezes para ler histórias calmas à miúda que já devia estar a dormir e apanhá-los às gargalhadas meia hora depois,
- faz piadas sobre as minhas dores de dentes (para que eu me ria e pare de chorar),
-  tenho dores de cabeça com algumas das músicas que ele ouve e babo-me com as que ele faz,
- nunca gosto do jantar, mas nunca tenho que o cozinhar,

...e o amo mais a cada dia que passa.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Aos seis anos e meio

- É fã dos The Beatles, The Quartet of Woah!, Queen, Pink Floyd, Nirvana, Eddie Vedder, David Bowie, Band of Skulls e Elis Regina.
- Chorou a ver o Little Stuart e um filme de natal em que transformavam um cão em pedra.
- Não compreende como é que as praxes integram alguém. Desde quando é que humilhar, dar ordens e sujar alguém é ser amigo. Já deixou bastante claro que se alguém a tentar pintar, espeta-lhe a caneta pelo nariz acima.
- É do quadro de honra da leitura (merda para os quadros de honra!!!!) - but of course i'm proud.
- Acha esquisito que no livro de estudo do meio existam todo o tipo de famílias, excepto dois pais ou duas mães.
- Gosta de se enfiar a meio da noite na nossa cama. Dormimos mal que a miúda está enorme e ginastica a noite toda, mas sabe bem como tudo.
- Deixou o ballet clássico e passou para o contemporâneo. Tem um professor só para ela. O melhor professor do mundo e nunca a vi tão feliz e tão aplicada.
- Adora dançar, cantar, tocar órgão, bateria e harmonica e pintar grandes telas.
- Ouve música nas portas a bater e na chuva a cair.
- Adora animais. Adora que a Essi durma com ela nas noites frias.
- Ficou de boca aberta quando a levei ao Mosteiros dos Jerónimos. Quando vê arco-íris fica com essa mesma expressão: "Como é que isto é possível??!!".
- Não gosta de fazer os trabalhos de casa. Trá-los praticamente todos os dias e fá-los. Mas com a mão a segurar a cabeça.
- Recusa-se a ir a circos com animais.
- Está a aprender a fazer tricot.
- Na escola conhece toda a gente. Gosta de toda a gente e toda a gente gosta dela.
- É altamente generosa. Leal. Sincera. Carinhosa.
- Fica sentida quando gritam com ela.
- Pergunta-me várias vezes se o Passos Coelho e os seus amigos já se foram embora, para ter um mano.
- A maior alegria seria ter um mano.
- Continua a gostar de saltar nas poças da chuva e nas folhas secas. Pára na rua e fecha os olhos para sentir o sol na cara, nos dias de inverno.
- Adora apanhar conchas.
- Detesta não saber saltar à corda, mas também não tenta aprender.
- Adora que lhe contemos histórias de quando era bebé.
- Continua a não gostar de sopa e pede-me com jeitinho para lha dar à boca nos dias em que está mais cansada.
- Tem uma letra maravilhosa.
- A matemática fascina-a.
- Adora futebol. É do Porto porque gosta de azul.
- Quando está preocupada com alguma coisa, pede ao pai que lhe cante o Summertime.
- Não gosta de ser fotografada e tenho que a fotografar sem que ela repare.
- Gosta de fingir que sabe inglês. E francês.
- Ri-se quando eu e o pai nos beijamos. Ri-se muito e abraça-nos as pernas.
- Sabe falar com as árvores. E com todos os animais. Acha que os pombos a perseguem porque ela os compreende.
- Não toca em leite. Só com chocolate. Não aprecia bolos. Nem sumos. Mas faz cara séria, quando o pai a deixa dar um golo no copo de coca-cola. Sente-se mais crescida.
- Acredita na fada dos dentes e no pai natal.
- Detesta acordar cedo.
- Tem orgulho em ser a única criança a ter a árvore de natal montada na sala. Em Fevereiro.
- É pedinchona e teimosa como tudo.. A maior drama queen com que já me cruzei.
- Nunca se cala. Nunca!
- É maravilhoso ser mãe dela.


...
One of these mornings
You're going to rise up singing
Then you'll spread your wings
And you'll take to the sky

But until that morning
There's a'nothing can harm you
With your daddy and mammy standing by

domingo, 4 de agosto de 2013

O dia da minha mãe

Todos os anos desde que a minha mãe partiu, ia com o meu pai emprestado ao cemitério.
Comprávamos as flores mais bonitas, regateávamos o preço e riamo-nos com isso. Descíamos lentamente até ao sítio onde estava a campa. Pousávamos as flores e eu deixava-lhe uma carta. Chorávamos. Limpávamos as lágrimas e iamos almoçar a sítios lindos para festejar o aniversário dela. Com toda a certeza que ela gostaria disso.
Da primeira vez, custou-me imenso. Não conseguia controlar a tristeza e o vazio que estava a sentir. Depois, sem saber bem porquê, percebi que me sabia bem. Sentia-me mais leve, mais aliviada. Com um grande vazio, mas menos sofrido.
Então, comecei a ir mais vezes. Sozinha. Levava-lhe as flores mais bonitas e uma carta a contar como estava tudo e o quanto gostava dela. Por engano, deixei várias vezes as flores e as cartas na campa do lado. E no dia de anos dela, com o meu pai emprestado, riamo-nos quando eu lhe dizia "ai é aqui? acho sempre que é a do lado".

Mãe:

Estamos todos bem. 
O R. diz que a Laura tem o meu sorriso. Eu reconheço o teu nos lábios dela, naqueles olhos que riem, nas covinhas daquelas bochechas gigantes.
Obrigada pela alfabeto feito em cartolina, por vires a correr quando tinha os pesadelos com as girafas a entrarem pela janela do meu quarto, por estares lá sempre que estava doente, por me dizeres que tudo ia correr bem, pela lasanha com as natas de soja, pelos banhos no alguidar, por me teres oferecido o Bob, por me teres dado a conhecer a Lídia Jorge e o Vergílio Ferreira, pelo Miró e pela Vieira da Silva, por não teres medo de andar de carro comigo, pelas tardes de Inverno no Guincho, por me deixares dormir até tarde, por me deixares plantar contigo os coentros e as roseiras, por só quereres que fosse eu a pôr-te o lenço na cabeça e obrigada pela última promessa que me obrigaste a cumprir.
Desculpa por não te ter deixado partir mais cedo e desculpa, mais uma vez, por te ter forçado a comer a gelatina.
Adoro-te.
Muitos parabéns.
Volta depressa.


quarta-feira, 17 de julho de 2013

O que conseguimos fazer em duas horas

Quem me conhece sabe que sou um bocado para o acelerada (para não dizer stressada), mas quando se trata da minha piolha, gosto das coisas com energia, mas com o timming necessário para disfrutar de cada momento. Gosto que as manhãs respeitem o ritmo dela, a preguiça dela e que sejam cheias de mimo e paciência. Mesmo com tudo por fazer em casa, gosto de a ir buscar à escola com calma, de virmos a conversar no caminho, a observar as andorinhas, os bichinhos de conta e os formigueiros.
A minha criança tem sempre imensa coisa para dizer. Hoje foi ao planetário e as constelações que mais a fascinaram foram "o touro, a ursa maior e a ursa bebé". Pensava que na segunda-feira ia para o 1º ano, porque na sexta-feira termina o ATL. Ficou um bocadinho desiludida, mas conversámos sobre as férias e sobre as coisas maravilhosas que vamos fazer e ela aceitou. Motivação não me parece que seja um problema, pelo menos, por enquanto.
Banho em modo expresso (leia-se duche), creminho, massagem, miminhos. 30 beijos recebi por lhe ter comprado uns autocolantes em forma de coração para ela fazer os convites para a sua festa de anos para dar amanhã aos coleguinhas da escola.
Recortes, canetas de feltro, coraçõezinhos pirosos, balões e convites assinados e personalizados. Revemos o texto. Fechámos envelopes. Jantámos. Conversámos mais um bocadinho no sofá. Apesar de a M. a arreliar - hoje tentou cuspiu-lhe para cima - ela já lhe tinha prometido que a convidava para a festa e não devemos faltar com a nossa palavra. Porque ela não quer que a M. fique triste. E eu também não preciso de me preocupar porque no final da festa ela arruma o quarto todo.
Lavar os dentes, abanar o dente que não tarda cai (faz-me tanta impressão!!!!), hora da história, festinhas no cabelo e bons sonhos.
Ela adormece tranquila.
Devagar, devagarinho, os valores da amizade, do respeito pelo próximo vão lá ficando. E é nestes dias em que sinto que "we are doing it right".
A nossa menina está a crescer feliz.
E o meu coração quase explode só de pensar que fomos nós que fizemos esta criaturinha. A mais doce que alguma vez podia imaginar.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A segunda-feira num fôlego só

Inspira

despertador toca, só mais cinco minutos, dez, gaita que já passa da hora, comida nos pratos das cadelas, Essi deixa lá o vizinho estar à janela, criança acorda chorosa, dormiu mal, tem dores de ouvidos, mimo e mais mimo, ver a febre, lágrimas, mais colinho, fica aqui que eu tenho que tomar banho, banho expresso, mais mimo, bruffen, sms a avisar que não posso ir trabalhar, mais lágrimas porque quer ir para a escola, não há febre, outro sms a dizer que estou atrasada mas vou trabalhar, colo até meio caminho, já não sinto os braços, entrega criança, mais mimo e mais mimo, coração apertadinho, correria até ao autocarro, 25 minutos à espera dele, música, correria até ao trabalho, stress, streaming, contente com a adesão à greve dos professores, horrorizada com os acontecimentos na Turquia e no Brasil, stress, telefones a tocar, stress, emails que não páram de chegar, sair do trabalho a correr, apanhar autocarro, música, acelera pá, estava amarelo anda lá com isso, correr para a escola, apanhar criança deitadinha numa caminha, brincou o dia todo e agora murchou, tem febre, colinho até casa, já não sentia os braços desde manhã por isso não custou nada, mais mimo, esfregar a barriga à Magali, atirar o brinquedo para a Essi ir buscar, gato do demónio ataca Essi, gato do demónio não tarda leva um pontapé no rabiosque, não, hoje não aturo gente estúpida, tenham paciência, dar sopa à boca da doentinha, mais mimo, bruffen, história de embalar, mais miminhos, sonhos cor de arco íris, dar jantar às cadelas, apanhar duas máquinas de roupa que está a chover e

E-x-p-i-r-a.


domingo, 5 de maio de 2013

O primeiro Domingo de Maio


Imaginava lá eu que em 2006 festejaria o último dia da mãe com a minha mãe. Enchi-a de presentes. Lembro-me que chorámos abraçadas uma à outra. No fundo não queríamos presentes. Queríamos mais tempo. Queríamos uma cura. Um milagre.
Hoje, não tenho a mãe que tanto queria beijar. Mas tenho a filha a quem entalho os lençóis à noite, a quem encho de mimos cada vez que cai, quem carrego ao colo quando precisa de mimo, a quem prego ralhetes quando passa das marcas, a quem costuro vestidos para as bonecas, a quem obrigo a comer sopa, a quem leio histórias mesmo cheia de sono, a quem ensino as constelações na noites de agosto, a quem faço todos os bolos de aniversário, com quem planto dálias, ervilhas-de-cheiro e alfazema. Como a melhor mãe do mundo me ensinou.
Não há dia em que não sinta falta dela, da voz dela, do cheiro dela, do riso dela. E dói-me. Mas guardo essa saudade num sítio bem escondido no fundo do meu coração, para de cada vez que a Laura me perguntar se tenho não tenho saudades da minha mãe, eu conseguir responder com um sorriso sincero "Sim, tenho. Muitas. Imensas. Mas guardo-a aqui no meu peito para todo o sempre". E ela sorri também.

Por isso, tal como todos os dias desde que a Laura nasceu, todos os dias são nossos. E hoje foi dia de pequeno-almoço no sofá, de me oferecerem flores, de irmos à praia brincar, de uma birra porque a barbie tinha as maminhas à mostra e não encontrávamos a parte de cima, foi dia de fazer festinhas à Essi e à Magali, foi dia de sol, de falar mal do passos coelho, de abraços, de cantigas, de rock no auto-rádio, de insistir para que coma a sopa, foi dia de vestidos às florzinhas, de espalhar creme depois do banho, de pentear cabelos cheios de nós, de fazer rir a melhor filha do mundo e deixar-me levar pelo sorriso doce dela e deixá-la dar mais um mergulho. Dois. Três.

Já te ofereci a minha felicidade numa bandeja. A minha felicidade a ti te devo. Por me ensinares a ser forte. Por me ensinares o que realmente importa.
Obrigada, Mãe! Feliz dia da mãe, Mãe!


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Sou só eu que me levanto a meio da noite

para ir à casa de banho, feita zoombie, noite após noite, sinto qualquer coisa debaixo do meu pé, executo um flic flac para a frente em perfeito equilibrio, não vá esmigalhar a pata a uma das cadelas.

Mas não, afinal não. Era só um osso que a Essi desenterrou no quintal e deixou no meio do corredor. Ou o seu peluche preferido que chia sempre que é apertado!

Depois queixo-me que acordo com dores no corpo todo...


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

I promise III


O último bicho da minha promessa: a Magali
A Magali chamava-se Lucy (de Lucy in the sky with diamonds), mas como a sonoridade era similar ao nome da sua mãe Essi, tivémos que mudar. É que chamávamos uma e vinham as duas. Mandávamos sentar uma e sentavam-se as duas. Ok, às vezes dava jeito. Mas na maioria das vezes só criava confusão!
A Magali nasceu em berço de ouro. No meu quarto. Era uma dos seis cachorros que a Essi teve com o Bob - fruto de uma distracção nossa (a cadela tinha tido o cio há uns 3 meses - nunca imaginámos que acontecesse o que aconteceu).
A Magali era a mistura perfeita do pai e da mãe. Como tinha uma hérnia umbilical e era a mais atrasada de todos os irmãos (os outros corriam para a comida e ela arrastava-se; enquanto os outros cinco faziam trinta por uma linha, a Magali dormia refastelada), decidimos ficar com ela.
É um mimo de bicho. Adora tudo o que mexe: gatos, cães, porquinhos da índia, borboletas, crianças, tudo, tudo, tudo. É incapaz de fazer mal a uma mosca.
Obteve o COB (certificado de obediência básica) aos saltinhos, feliz e contente - confesso que assisti a várias provas, mas nunca tinha assistido a um canito que em vez de correr, saltita de alegria. Pediram-ma "emprestada" algumas vezes, para ela brincar com cães traumatizados - lembro-me de uma cadela branca, enorme, linda, toda encolhida. Tinha sido encontrada à beira da morte, toda desfeita, sobreviveu não se sabe como. Pensa-se que tenha sido utilizada para atiçar os cães de luta. Uma tristeza. E a cadela andava sempre cabisbaixa, com a cauda toda encolhida, um olhar triste. A Magali foi brincar com ela. Primeiro resistiu ao desafio da Magali. Depois correu que nem uma doida, com caudinha no ar. A Magali tem este efeito sobre o mundo! Acho que é por não conhecer a maldade. Nunca lhe fizeram mal, ao contrário do que fizeram à Essi.
Adora tomar banho, ser penteada, que conversem com ela. Dá beijinhos na veterinária, mesmo depois das picas.
Um dia, estávamos no Guincho a apanhar sol e a Magali começou a ladrar para o ar, ao mesmo tempo que olhava para mim e ia recuando. Levantei-me para ver se ela parava com o barulho e de repente, cai-me uma gaivota (giganteeeeeeeeeee) na toalha. Ou seja, a Magali salvou-me de levar com uma gaivota na tola!
No dias de mais calor, enfia-se dentro do prato da água (a sério!) e inunda-me a cozinha toda. É gulosa à brava - quando a Laura estava a aprender a comer sozinha, o lugar preferido da Magali, era debaixo da cadeira dela - a comida nunca chegava ao chão!
Após o Natal de 2011, a Magali adoeceu. Começou com convulsões e eu apanhei um dos maiores sustos da minha vida. Já está diagnosticado - epilepsia - e a medicação tem controlado as crises.
Adora imitar a Essi nas refilices aos vizinhos, mas como é um bocado tótó (e saltitona demais) ou chega atrasada ou ladra precisamente para o lado contrário do apocalipse.
Tem um medo terrível de aspiradores (não me perguntem porquê, o Bonb adorava ser aspirado) e passa a vida a pedir colo, como se fosse um bebé.
A Magali posso perfeitamente levar à casa da minha mãe. Ela adora andar de carro e tristezas não fazem parte da vida dela.
Quando a Laura nasceu, a Magali dormia por baixo do berço. Guardava todas as sestas, todos os soninhos da noite.
Quando a Laura teve varicela, a Magali só saía da guarda para ir à rua ou para ir comer.
É o desenho animado cá da casa.
Tem um bafo horroroso, mas quem é que resiste aos beijinhos mimocas desta bicha? Ninguém, vos garanto!
E são estas coisas lindas de 4 patas que jurei proteger, cuidar, mimar e nunca separar. À minha mãe. Que era a melhor dona do mundo.







segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Afinal ir ao dentista é pior que ir cortar o cabelo


Sábado fui ao dentista. Entreguei a L. à avó e lá fui para a paragem do autocarro... tanto tempo de espera e nada... claro! Não há aquela carreira aos fins de semana. Piursa da vida e a resmungar com a carris lá apanhei um autocarro para o metro e mais uma troca de linha e mais um passeio por um descampado e cheguei.
Cheguei mesmo em cima da hora e fui logo atendida. Um dos sisos estava-me a dar cabo do juízo. Ou se desvitalizava, mas sem garantias de sucesso - raízes esquisitas e mais não sei o quê - ou se extraía. Saltei logo da cadeira. É que nem pensar. Agora arrancar-me um dente. "ah eu também já tirei os meus quatro, só dão chatices", não, não, nem pensar, dizia eu. "Mas sai-lhe mais barato de certeza". Ok, bora lá.
No que me fui meter. O raio do dente não queria sair nem por nada. As minhas pernas tremiam. Só pensava "Caramba, Vera, já pariste uma criança e não custou nada e estás aqui neste estado de nervos! Controla-te, mulher!!". Enquanto o dentista ia trocando de instrumento, eu ia-lhe perguntando coisas "Rolhe lá, nunca inguém quesmaiou (tenho quase a certeza que me ia babando ao mesmo tempo)". Sim, às vezes acontece. Ainda lhe agarrei o pulso, quando ele me espetou um dos instrumentos de tortura com mais força. O sacana do dente saiu e ele decidiu coser-me. E eu aí paniquei da maneira mais absurda que existe. Pus na cabeça que ele me ia coser os lábios. Só descansei quando ele acabou e eu me agarrei à boca. Era sangue por todo o lado e eu devia estar branca com a neve.
Saí e a senhora da recepção perguntou-me se eu tinha ido só fazer a destartarização. "Rão, im tirá um enteeee!!!" (ursa, bastava olhar para a minha cara e perceber tudo!)
Saí do edifício e liguei ao R. a chorar desalmadamente para lhe perguntar se ele me podia vir buscar. Não estava com vontade de apanhar transportes públicos e ir a cuspir sangue o tempo todo. Ainda pensei em atravessar o descampado e apanhar um taxi. Mas depois ele ia querer saber para onde é que eu queria ir e eu ia dizer e ele não ia perceber a minha nova maneira de falar e eu ia-me enervar, e não choro à frente de qualquer pessoa e depois ele ia olhar pelo retrovisor e lá estava eu, cheia de sangue na boca, feita vampira, a fazer força para não chorar. Além disso, eu tinha acabado de poupar dinheiro. Não o ia desperdiçar num táxi. O R. veio. Abriu-me a porta, olhei para ele, encostei a minha cabeça no ombro dele e desatei a chorar. Parecia que me tinham tirado um rim. Ele lá disse uma piadola, eu ri-me e depois chorei o caminho todo de regresso a casa. Enfiei-me na cama com gelo encostado à bochecha e chorei, chorei, chorei. Acabei por adormecer. Acordei e vi "A vida de Pi", deitada na cama. Chorei baba e ranho. Depois vi o filme do Woody Allen (o de Roma) e só não chorei a rir, porque a minha cara não aguentava qualquer tipo de expressão facial. Comi sushi que o R. me trouxe, partidinho em mil bocadinhos para não ter que mastigar.
Passei a noite cheia de dores e de frio, agarrada ao gelo e a contar as horas para tomar o analgésico.
Domingo a L. regressou a casa e quando me viu disse-me "Ai mãe, estás tão feia. Mas não faz mal, porque tu és bonita". Depois quis saber tudo e se eu tinha sangue. E se eu podia abrir mais a boca para ela espreitar lá para dentro. Ao menos que isto faça as alegrias de alguém!
Hoje continuo com uma terceira bochecha, tenho dores que não lembra ao diabo na boca toda, continuo sem conseguir comer, já gritei com toda a gente cá de casa e ainda me falta tirar outro siso.
E pronto, isto tudo para vos dizer que ando meio desaparecida, para vos explicar porque tenho um alto na bochecha, porque falo de maneira esquisita e porque é que tenho olheiras até aos pés.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Come a sopa! (canja nunca mais!!!!)


- Então, Pipoca, que aprendeste hoje na escola?
- Hum... nada, mãe.
- Nada? - Come a sopa!
- Só brinquei, brinquei, brinquei...
- Ah e a brincar não se aprende?
- Estás-me sempre a dizer isso. Conta-me tu primeiro como foi o teu dia.
- Está bem. - Come a sopa! - Então, apanhei o autocarro, blá, blá, blá e depois fui almoçar com a I.
- Comeste sopa, mamã?
- Comi sim. Adivinha lá qual foi. - Come a sopa, Laura!
- Espinafres?
- Não.
- Creme de cenoura?
- Também não. Foi canja. - Come a sopa, ai!
- Ah canja... gosto tanto.
- Pois foi. Canja de galinha.
- De g-a-l-i-n-h-a???!!! Tu comeste canja de galinha? Nem quero acreditar. A E. hoje contou-nos uma história de terror.Foi, foi. De terror. Havia uma galinha que dava ovos de ouro. Ouro verdadeiro. E o dono dela era tão mau, tão ganancioso que lhe abriu a barriga para ver se havia mais ovos. A sério, mãe.Zás, zás, abriu-lhe a barriguinha. E claro que não havia ouro. É tão triste. É mesmo um filme de terror. Podiam ter sido todos felizes, se calhar até nasciam pintainhos dourados. É tão tristeeee. Mesmo, mesmo triste. Que é que foi, mamã? Porque é que estás com essa cara? Come a sopa!
- Dá cá a tua. As sopas já estão frias... vou aquecê-las... ainda bem que era só uma história, não é fofinha?
- Ainda bem que não é a sério que é para eu não ter pesadelos.
- Ainda bem, filha!

Depois do jantar, já na caminha cantámos juntas baixinho "I can see clearly now the rain is gone" e a minha mais que tudo adormeceu feliz e em paz.

Caramba! Já nem me lembrava que esta história existia. Acho que quem vai ter pesadelos sou eu - não consigo parar de visualizar uma galinha toda esventrada por um mauzão qualquer...


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

I promise II


A Essi foi apanhada quase com 4 meses, numa carpintaria. Trataram-na mal a ela e aos outros 2 irmãos. Ficámos com ela e conseguimos encontrar donos para os outros cachorros.
Nunca tinha visto a luz do dia e tinha um medo de morte de sair de casa sem ser já noitinha. Tinha os ouvidos cheios de serradura e estava cheia de pulgas. Não sabia beber água. Nem brincar - imaginem, ter que ensinar um cachorro a brincar. Qualquer movimento mais brusco, qualquer palavra mais alta e ela encolhia-se.
A Essi é filha de um border collie e de uma rafeirita, minorca, esquisita, desdentada, que era tão doce, tão meiguinha que lhe chamámos Bombom e que morreu pouco tempo depois de ter os bebés.
Levámo-la a uma escola de cães (por acaso, acho que é mais uma escola para os donos), para ajudar a bicharoca a perder o medo de tudo e de todos. As primeiras semanas foram difíceis como tudo. A Essi não queria estar ali. Só puxava para a porta de saída. Não fazia mais nada. Eu ganhei um músculo fantástico no braço direito de tanto esticanço que levei. Até que um dia, sem nada o prever, esticou a cauda para fora e sentou-se a olhar para mim. E eu disse-lhe "Essi, junto!". E ela caminhou ao meu lado. E passou a obedecer a tudo o que eu lhe pedia. Fora dos treinos, era mais complicado. Tinha medo de todos os cães, excepto do Bob, de quem se tornou muito cúmplice.
Agora a Essi tem 10 anos. Nunca teve doente. Só uma vez é que andou com uma pata ligada porque andou a imitar as cabras montesas na serra de Sintra e uma das acrobacias correu-lhe menos bem.
Já não se encolhe de cada vez que mexo na esfregona, adora ladrar aos vizinhos que teimam em pôr-se à janela e até houve uma vez que nos roubou o jantar da mesa da cozinha. Continua sem saber relacionar-se com outros cães, excepto dentro de casa. Ladra quando alguém chega e se não gosta das pessoas (especialmente vendedores), deixa-os entrar e quando eles tentam sair, ela arreganha os dentes todos e não os deixa passar da porta. É desconfiada e assustadiça, mas defende com unhas e dentes as "pessoas dela". Quando a Laura nasceu, só entrava no quarto quem ela conhecia.
Sai ao pai, quando nos tenta abocanhar as canelas, como se fosse para nos arrumar. O Bob foi o que mais sofreu com as "arrumações", logo ele que detestava que lhe tocassem nas patas.
Ainda gane de maneira aflitiva se alguém lhe toca no cachaço com um bocadinho a mais de pressão, mas é a única cadela que eu conheço que dá abraços tão apertados, tão sentidos, como se fosse uma pessoa.
Deixei de a levar a casa da minha mãe, quando vou visitar o N., porque desde que ela faleceu, a Essi entra, cheira tudo e deita-se à porta do que foi em tempos o quarto da minha mãe. E dali não sai até irmos de volta para o carro.

A Essi também faz parte da promessa.


domingo, 13 de janeiro de 2013

Das certezas de ser mãe (ai vou-me repetir tanto!)


Partindo de um post que li no blog da doce Maggie...
Acredito que uma mãe preocupada, que questiona a educação que dá aos seus filhos tem tudo para ser uma boa mãe.

Não sei se se me consigo explicar bem, até porque há coisas que nem eu compreendo, mas dias antes de saber que estava grávida, fui "assombrada" por uma mistura de sentimentos. Sentia-me diferente. Pela primeira vez desde que a minha mãe morreu, acordei feliz e com a certeza de que queria ser feliz. Dias depois fiz o teste - ok, foram vários, imensos, todos os disponíveis - e percebi o que estava a sentir.

Ia ser mãe e deixei de ter qualquer tipo de medo. Nunca me passou pela cabeça que alguma coisa fosse correr mal. Nunca tive medo do parto. Foram fundamentais duas coisas que a minha mãe me ensinou "Pode custar um bocadinho, mas ao bebé também custa e o nosso papel é ajudá-lo a nascer" e "É só uma pessoa mentalizar-se que cada contracção que tem, está mais perto de ter o bebé nos braços."
O meu parto demorou 3 horas. E quando o R. me pôs aquela bebecas linda nos braços nunca senti nada parecido com medo. Muito pelo contrário. Senti foi um grande amor e o amor não me assusta!

Sinto todas as certezas do mundo porque sei o que quero e o que posso exigir dela. Exigir-lhe que seja, acima de tudo, feliz. E ser feliz significa ser sensível, não ser indiferente. Significa amar e ser amada.significa que lute pelas coisas que acredita. Significa ter confiança nela e dar-lhe a liberdade de fazer as escolhas dela, dando-lhe a certeza de que estaremos sempre do lado dela.

E digo com toda a certeza que não me arrependo de opções que tomámos. Se ela cai e chora, sempre foi nosso lema dar-lhe a atenção, o abraço e o mimo que precisa. Nem que seja porque se assustou. Se faz birras é porque precisa de as fazer e também optámos por lhe dar o tempo que ela precisa para chorar, com paciência, com colo, com compreensão. E a L. não é nem "mariquinhas" nem "birrenta". É uma menina decidida que já começa a compreender que leva ralhetes porque é o nosso tesouro e queremos o melhor para ela.

Pode parecer lamechas ou demasiado simplista, mas acredito que o ponto de partida (e o de chegada) para educar um filho é o amor. Amá-los e não ter medo nem preguiça de o dizer nem de o demonstrar, nem desvalorizar o que isso significa. É um amor tão forte que me faz acreditar que posso tornar este mundo num lugar melhor. É um amor que me faz feliz, mas tão feliz, que não cabe em lado nenhum. É um amor que me faz rir. É um amor que faz com que fiquemos a admirá-la enquanto dorme, apesar de termos às costas o peso de um dia duro no trabalho e de ela ter feito birrinha para dormir.

O lugar que esta criança ocupa nos nossos corações, como alimenta o nosso mundo é de um poder, de uma imensidão, incalculáveis. É maravilhoso, é extraordinário, é o amor a acontecer.

Os conselhos que pedi - e que peço, as histórias que ouvi - e oiço, os livros que li - e leio, os comentários que ouvi - e oiço, fazem de mim a mãe que sou hoje. Boa ou má mãe? Não sei. Que amo a minha filha mais que tudo no mundo? Que lhe digo isso vezes sem fim? Que a beijo e abraço vezes sem conta? Que fico maravilhada cada vez que olho para ela e me lembro que fomos "nós" que a fizemos? Que aprendo coisas novas com ela todos os dias? Que ela me diz, sempre a sorrir, que é feliz? Que a oiço e ela me ouve a mim? Que tenho imenso orgulho dela? Que tenho saudades dela desde o momento em que a entrego na escola? Que nada na minha vida como mãe é um sacrifício? Sem dúvida que SIM!


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Quero a minha vida de volta! E a tua!


Ainda há quem ache que levar criancinhas a manifestações é um atendado contra a sua inocência e é cortar-lhes o poder que têm para sonhar.
Ora, eu penso exactamente o contrário e esta frase do Karl Mannheim é uma resposta perfeita ""O que se faz agora com as crianças é o que elas farão depois com a sociedade."
Que espécie de mãe seria eu se não explicasse o que se passa no mundo à minha filha? Explico-lhe que deve poupar água e luz, mas não lhe explico que a mãe e o pai não lhe podem dar um irmão, por muito que queiram, porque não teriam dinheiro para lhe pagae uma creche nem as vacinas contra a meningite? Explico-lhe que devemos respeitar os animais, mas não lhe explico que há gente a passar fome? Explico-lhe que devemos ser solidários e amigos do próximo, explico-lhe porque acho que devo ir às manifestações a que vou e deixo-a opinar e decidir por ela.
Pode ser perigoso. Pois muito bem, também no caminho para a escola passam ratazanas aos nossos pés e corremos o risco de sermos mordidas e apanharmos raiva. Também há carros que fazem ralis logo de manhã e não páram nos sinais vermelhos. Mas o que ela traz no coração com o que aprendeu na escola, vale a pena correr todos estes riscos. Sei bem ir a uma manifestação. Ensinaram-me bem. Conheço os sinais de alarme e sei que não vou sozinha. Levo comigo uma criança. Criança essa que se sente segura comigo e nunca teve algum tipo de medo em qualquer dos ajuntamentos a que foi.

Apesar de o sectarismo da CGTP me pôr doente, esta não é altura para amarguras. É altura de resistência, de luta e de união. Ainda para mais, o Arménio já veio dizer que esta manifestação é de todos nós.
É altura de exigirmos os nossos direitos de volta, a nossa dignidade, dos nossos filhos, dos nossos pais, de todos nós. Sábado lá estaremos!
É altura de exigir que os culpados por esta "crise" (sim, entre aspas, porque crise é só para alguns), sejam julgados pela miséria que estão a criar, pelo desemprego, pela fome. São ladrões, são fascistas, são mentirosos e merecem ser punidos por isso. E porque tenho que dar respostas à minha filha quando esta me pergunta "Se o Passos Coelho rouba as pessoas porque é que não o põem de castigo?".

Tudo o resto que tenho para dizer está aqui http://lolitar.blogspot.pt/2012/09/15-de-setembro-queremos-as-nossas-vidas.html e aqui http://lolitar.blogspot.pt/2012/04/e-o-25-de-abril-aqui-tao-perto-e-tao.html.

Depois de ver polícias a identificarem um estudante, dentro da sua própria escola por se manifestar contra o bunny steps; ver um jornalista que filmou a situação ser agredido por um segurança; mais aturar um anormal qualquer de uma comissãozeca de ética (?????) dizer barbaridades, estou arrumadíssima.
Tenho que guardar o meu fôlego e o latim para sábado!
Acordai!

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Laura vegetariana

Pergunta-me ela, olhando de esguelha para o prato:
- Oh mãe, o frango é peixe?
Limitei-me a dizer que não, já com medo do que vinha por aí.
- Não???!! Então é o quê?
- Bem... hum... é carne...
- Oh mãe, carne? Estás a dizer-me que o frango é um bicho???!!!
- Pois... é isso...
Responde-me ela com o ar mais desconfiado do mundo:
- Mas diz-me lá conheces algum bicho chamado frango? A sério! Diz lá!
- Pois, chamado frango realmente não conheço.
- Então pronto.
- Então pronto.

Uffa!!!! Ainda bem que só conheço Essis, Magalis, Pigs, Plumas, Molys, Snoopys, Pantufas, Minús e nenhum se chama frango!!!



Coisas que sei que não devia fazer


mas faço na mesma...

- Fumar - sempre que tenho que correr para apanhar o autocarro ou quando se aproxima um check-up qualquer médico, lembro-me disto;

- Perguntar ao segurança do Lidl se me quer carregar as compras, já que não pára de me seguir - o senhor está a cumprir ordens e não tem culpa de ter um trabalho que o faz andar a perseguir quem vai comprar o jantar;

- Aceitar a sugestão da Laura e saltar em cima de folhas caídas das árvores, sem antes verificar o terreno - calham-se sempre a mim, que nem galochas tenho, o raio das poças de água fria e suja de terra;

- Desligar o despertador e deixar-me ficar só mais cinco minutos - não aprendo! e depois é uma correria de manhã;

- Vestir collants no inverno, só para não dizerem que ando sempre de calças de ganga - passo o dia a coçar-me e a puxar o raio dos collants para cima;

- Não levar chapéu de chuva, mesmo quando sei que vai chover - tenho a mania que nunca me molho, o que é um autêntico mito;

- Pentear as bonecas da Laura com a minha própria escova - depois ando cheia de cabelos loiros e tão brilhantes que ofuscam qualquer pessoa, presos ao meu cabelo;

- Ignorar as polaroids que se vão descolando e caíndo no chão, só porque tenho preguiça de me baixar - qualquer dia o R. faz o mesmo e passamos a ter soalho de fotografias, em vez de madeiras;

- Negar-me a pagar para ter televisão em casa - tenho saudades de vegetar no sofá a ver séries estúpidas;

- Lavar o cabelo todos os dias - qualquer dia fico careca;

- Deixar de tocar trombone quando espirro - a Essi fica com medo de mim;

- Atirar tudo o que é papelada para dentro da mala - quero tirar o passe e sai-me a conta da electricidade;

- Comer bitoques em frente à Magali - a cadela um dia destes passa-se e ataca-me;

- Achar que as pessoas sentem que estou perto só porque penso nelas - outro mito: a telepatia;

- Stressar-me com a falta de tempo - o tempo não pára lá porque eu ando tipo barata-tonta a correr de um lado para o outro.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Fronteiras (obrigada oh sandrinha!!)

Há vários tipos de fronteiras. Há as fronteiras geográficas e eu sou péssima a geografia. Mas assim mesmo péssima. De tal modo que nunca escolho o azul no trivial. Eu percebo que seja uma maneira de organizar os continentes, países, cidades, juntas... mas eu gosto de me ver como cidadã do mundo. Sem fronteiras.
E adoro jogar trivial. Fico-me é pelo cor de rosa e pelo castanho e faço figas para que não me saia uma pergunta sobre golf ou sobre o mundial de futebol no cor de laranja. Só sei que o o do México que foi em 86 - México 86 lá lá lá lá!
Gosto de jogar twister, mas com a rosa que inventa órgãos até ficar nas posições mais estrambólicas que possam imaginar.
Ainda cheguei a ter as pulgas da cama - devem existir pulgas na cama de gente de todo o mundo - mas a raça das pulgas saltavam do tabuleiro e ninguém as apanhava. Nunca tive foi a operação...
E o jogo dos países. Ai o jogo dos países. Adoro jogar aos países, apesar das linhas que vão ficando cada vez mais tortas, à medida que se vai avançando nas letras. Mas lá está, falta-me sempre algum país ou cidade para gritar "stoooooooop".
Não posso deixar de referir o jogo dos coelhinhos na wii. Eles também passeiam pelos continentes - deve poder contar como uma aula de geografia.
Os jogos de cartas também devem ser jogos do mundo... a sueca, a espadinha, o king, o poker...
E que saudades tenho eu dos matraquilhos! E de noites de jogos!
Jogar jogos é linguagem universal! Sem fronteiras!


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Nem sei o que sentir, quanto mais o que escrever...


Ontem foi dia de transformar em cinzas o passado. Ainda andei a passear a minha mãe por Lisboa, se bem que não me respondeu a nada do que perguntei. Nem quando lhe perguntei se preferia ir por São Sebastião ou pela Lusíada. Passou a nossa música no rádio. Caramba! - pensei eu... quais são as probabilidades de isto acontecer??!!! Quando estacionei apercebi-me do peso. Do peso que me deu cabo do braço e do peso no peito. Tentei dormir. Nada. Por culpa dos elefantes com cascos que vivem no andar de cima. Optei por me deitar no chão e ser lambida pelas minhas amigas 4 patas, até rirmos as 3 às gargalhadas. Depois fui estender roupa. Adoro o cheiro a roupa lavada.
Fui buscar a piolha à escola. Adoro ir buscá-la à escola. Perguntou-me se o meu dia tinha sido bom. Se me tinha corrido bem o trabalho e que tinha tido saudades minhas. Nem imaginas as saudades que tive tuas, Laurinha. Nem imaginas.
Fomos tirar fotos tipo-passe. O banco era areia e o chão era o mar. As fotos ficaram o máximo.
Fomos inscrevê-la na nova escola de dança. As senhoras da secretaria ficaram fãs dela - que querida, tão educadinha, tão simpática, fala tantoooo.
E para festejarmos a tarde boa que tivémos fomos comer um gelado de mão dada e ler uma história na esplanada. O sorriso e as gargalhadas dela mantém-se inalteráveis - era ainda um bebé de colo, que nem o pescoço conseguia aguentar e ria-se exactamente como se ri hoje, quando leio para ela.
A Laura não é nenhum medicamento. Nem serve para me fazer sentir bem. Mas que me faz esquecer os males que me perseguem, isso sem dúvida que sim. É pura magia, digo eu.



quarta-feira, 18 de julho de 2012

“The greatness of a nation and its moral progress can be judged by the way its animals are treated”

Dizia o Gandhi, digo eu e devíamos dizer todos nós.
Um dia a Laura chegou horrorizada a casa porque na escola havia uns meninos maus que o divertimento que arranjaram foi esmagar caracóis. Expliquei-lhe que há meninos que têm que ser ensinados a ser gente e que com certeza eles não gostariam que algum gigante de bibe e chapéu vermelho se chegasse ao pé, os tirasse do escorrega e os esmagasse com os pés.
Ela deve ter-lhes explicado porque não voltou a acontecer.
Os animais são ser parte da família. Devem ser respeitados, amados e estimados. Devem ser felizes e protegidos por nós. Sejam cães, gatos, minhocas, peixes, ratos, coelhos ou bichinhos da seda.
Nunca cá em casa foi admitido puxões de pêlo, incomodá-las enquanto dormem ou pontapés. Nem cá em casa nem em nenhuma situação nessas casas e ruas espalhadas pelo mundo fora que eu presenciasse.
Curiosamente, neste ninho, nunca foi admitido, nem nunca foi tentado! Elas amam-se! Desde sempre. E para sempre.


terça-feira, 17 de julho de 2012

O admirável mundo da Laura


Se ela mandasse no mundo, as nuvens eram baixinhas, podíamos moldá-las em forma de animais e lambuzarmo-nos tal e qual como fazemos com o algodão doce, não havia noite a não ser quando quiséssemos ver as estrelas e a lua, não havia acordar cedo nem tempo nem atrasos, não havia nem guerras nem sopa. Havia espuma em todos os banhos e andar de pé descalço o dia todo. Havia neve no chão e nos telhados das casas, folhas secas para pisar e poças de água para chapinhar. Havia flores de todas as cores em todos os lugares. Havia morangos e cerejas para comer. Árvores para trepar. Havia areia para fazer castelos. Com pontes, torres e cavaleiros. E praias a perder de vista com ondas pequeninas. Havia viagens de barco e excessos de velocidade em patins. Havia beijinhos e abraços para dar e receber. Havia histórias com final feliz e cantigas a cada segundo. Palácios, princesas, sapos e tesouros. Nunca havia lágrimas nem medo do escuro. Gatos bebés, bambis e joaninhas. Tubarões e lobos bons. E memória de elefante. Vestidos que rodam. Corações pintados em cada parede branca. Baloiços nas tardes de primavera. Arco-íris. Preguiça no tapete. Rebolanços na relva fresca. E uma palavra para cada momento. Ou várias. Um aceno e um sorriso a quem passasse por nós. Tudo cheirava a mar, a baunilha, a pêssego e a rosas.
Tu mandas no mundo, só ele é que ainda não sabe.





quarta-feira, 4 de julho de 2012

As birras

não me assustam. Muito pelo contrário! Adoro uma boa birra! Adoro ver os miúdos a reagir e a lidar com as frustações. Ontem foi dia de birra! A gaiata estava esfomeada, mal humorada e sem a chuchamigo... Foi vê-la chorar, espernear, abraçar-se a mim (com mais força, dizia eu!) e ver as pessoas a reagir. É que o que é engraçado no meio disto é que os adultos não sabem lidar com as birras. Veio a senhora x e mete-se com ela "então, laurinha, que tens tu? porque choras? estás zangada?", e a piolha mais chorava e mais me apertava. Depois vem o y "Ai que vergonha, está tudo a olhar para ti no restaurante" - e aí meti-me eu "E então? Há algum problema? Se querem olhar, que olhem! Desde quando é que chorar é motivo para ter vergonha???". Senhores e senhoras, meninos e meninas, eu sou a Vera e esta é a Laura a fazer uma birra. Muito prazer, agora podem voltar a olhar para os vossos pratos, que não tarda começo a cobrar bilhetes para o espectáculo (esta parte não disse, mas pensei!!!! - assustei-vos, não foi???!!). Colher de sopa goela abaixo e a dona birra vai pregar para outra freguesia, prometendo voltar assim que tiver oportunidade e eu tenho de volta a criança sorridente e que fala alto como tudo! Não a queriam ouvir chorar, agora ouvem o que ela tem para dizer (e não é pouco!!!). Há sempre tema de conversa com esta minha filha, é impressionante! Da salada, salta para o grilo, do grilo para a nancy, da nancy para o cats e por aí fora...
Só há um tipo de birras para o qual não tenho a mínima paciência: sono! Tem sono, dorme! (Se bem que até eu tenho birrinhas de sono de vez em quando... se calhar é mesmo por isso que não gosto delas perto de mim... curioso, hã?).
Tentar parar as birras com "cala-te!", com "vais ficar de castigo!", "se parares de chorar dou-te um chucha-chupa" ou "levas um sopapo" revela a inteligência digna de uma minhoca e corre-se o risco de os miúdos cresceram sem a capacidade de lidar com as adversidades que a vida teima em colocar.
Uma pessoa muito especial ensinou-me isto - as birras mandam-se embora com mimo - e eu acredito nisto com todas as minhas forças, com a maior das convicções!
Por isso, quando elas aparecem eu agarro-as e trato delas com beijinhos repenicados, com abraços apertados, com festinhas mimentas, com esfreganços nas costas, com enrolanços de madeixas de cabelo e com "amo-te no matter what, forever and ever".