segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

coisas que me irritam (em constante actualização)

a casa dos segredos
que sejam preconceituosos com escritoras mulheres
que digam que manteiga magra é manteiga
que digam que beber vinho faz mal
que seja preconceituosos com musicais
que digam que já começa a ser tarde para ter filhos
que digam que beber água faz mal
o paulo portas 
que deitem fora a água dos cogumelos enquanto estão a cozinhar
pessoas que dizem que "lêem muito", que é um "vício"
aquelas saias da moda com uns folhos na cintura
que usem mais do que um diminutivo por frase
que digam que as crianças são sobredotadas porque não gostam da escola
comentários no blog a divulgar outros blogs
a frase "o que tens feito?"
afirmar que o leite faz mal a toda a gente
dizerem que a comida está boa mas se fosse feita de outra forma era melhor
que me digam para largar o telemóvel assim que agarro nele
assumir um facto que se desconfia como sendo absolutamente certo
que olhem para o que estou a comer
que digam que não podemos falar mal de um livro se não o lemos
livros encomendados
que me digam que estou magra demais
arquitectos
pessoas que não lêem porque não têm tempo
a frase "não sabias isso?? a sério??" 
que sejam preconceituosos com o dourado
pessoas que sabem que não podem ir a um sítio e dizem "vou tentar aparecer depois digo qualquer coisa"
pessoas com o "bichinho da leitura"
comida sem sabor porque o sal faz mal 
a conversa do "eu é que tenho culpa, tu tens a razão toda, eu sei, mas estou a sofrer muito..."
que me corrijam erros quando sei que não é um erro
que não me respondam a sms com perguntas
chuveiros sem pressão
o lol
que sejam preconceituosos com escritores hispano-americano
gente que acha que ipods, ipads, iphones é tudo a mesma coisa
as pessoas que acham que os desempregados não querem trabalhar
fotografias de casais no perfil do facebook
que me digam para fazer "qualquer coisa simples" para o jantar
bolonhesa de soja
que me respondam apenas à segunda parte do sms
que achem normal ver a casa dos segredos
duche morno
que se zanguem comigo e digam "não quero falar sobre isso, ok?"
cogumelos de lata
o lol (já disse?)


era um par de estalos tão bem metido a cada pessoa que me fizesse cada uma destas coisas...

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Chega mais um ano e com ele novas resoluções (actualizado)



Pois é, sobrevivemos a mais um ano e entrámos agora num outro, desta vez ímpar (são os melhores, segundo dizem, outros são de opinião contrária). Este ano não se avizinha fácil, parece que vamos que ter apertar o cinto (confesso que nunca percebi esta expressão, nunca vivi de cinto largo...).

Mas comecei 2013 divertida e com pessoas que adoro. Trocámos o champanhe por sangria de espumante, não usei as tradicionais cuecas azuis ou vermelhas, fizemos a nossa própria contagem (a oficial foi demasiado cedo) e as passas foram resoluções públicas, uma a cada badalada.

Pode ser que assim o ano corra melhor.

1. Estar mais atenta.
2. Ser mais companheira.
3. Ser menos crítica.
4. Ser mais compreensiva.
5. Acordar mais cedo.
6. Ceder menos à preguiça.
7. Ouvir mais música, ver menos tv.
8. Não deixar os trabalhos para a última da hora.
9. Ser mais organizada e mais disciplinada.
10. Comer mais sopa ou vegetais ou sopa com vegetais. Aprender a fazer tricot.
11. Controlar as hormonas.
12. Não deixar que as notícias me tirem o sono.

Bom 2013 minhas amigas.
Será este o melhor de todos até agora.
Vão ver...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O nosso Natal

O nosso Natal começa em meados de Outubro. Reunimos tudo: o papel colorido, as lãs, os tecidos, as tintas, as purpurinas. Vamos pensando em cada pessoa que amamos, transformamo-nos em ajudantes do pai natal e somos felizes com cada prenda que vai nascendo. Fazemos biscoitos e enfeitamos a casa com coisas feitas por nós, ouvimos música, cantamos. Adoramos o natal. Adoramos ter a casa cheia de gente feliz.
Os olhos dela que brilham mais que as luzinhas da árvore.
Feliz Natal a todos e a todas!





quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Rabina dos Bosques

Hoje de manhã, no caminho para a escola:

- Mãe, estive a pensar...
- Ai! O que é que vem aí - pensei eu.
- O pai chama a polícia, tu dás-lhes um ralhete e eles tiram os ricos daquelas casas em que os pobres não podem entrar. Então as pessoas que não têm dinheiro nem casa vivem felizes, fazem uma festa, a polícia fica à porta a guardar a multidão...

Pois bem, estou a criar uma Rabina dos Bosques.

O curioso de tudo isto é que nunca na vida lhe expliquei o que é um condomínio privado - julgo que "aquelas casas em que os pobres não podem entrar", devem ser condomínios privados...

A do eu dar ralhetes ainda estou a descortinar...




quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

o natal no palácio

eu não queria árvore de Natal, não acho grande piada a casa é pequena e tal. a inês, que é uma fofinha gigante, mandou-me uma msg que me tinha comprado uma árvore vermelha que ia ficar a matar na minha casa. já não vive comigo mas continua a tratar do Natal da minha casa. e então criei uma imagem de árvore de natal do mais pirosa que há e voilá, cá está ela, com um colar de pérolas. e não é um colar de pérolas qualquer. é um colar de pérolas dourado.


Como fazer um bolo

para a piolha levar para a festa de natal da escola (quando a mãe está destroçada porque este ano os pais não podem assistir, devido a cortes orçamentais)

1 - Comprar daquela massa já feita (nunca na vida tinha feito tal coisa, mas há sempre uma primeira vez para tudo),

2 - Pedir opinião à Rosa sobre que forma utilizar e ficar contente porque ela diz "ah esses bolos ficam muitaaa bons!"

3 - Deixar a piolha ir brincar com a Rosa na casa ao lado,

4 - Untar a forma com margarina e farinha (e fazer figas para que a raça do bolo não pegue - porque é que não comprei mais uma embalagem de massa, não vá o diabo tecê-las?)

5 - A Magali chora baixinho... Caraças, já passa das oito, a bicharoca tem fome. Pesar a ração da Magali, deitá-la no prato respectivo. Pesar a comida da Essi. Deitá-la na forma do bolo já untada!

6 - Dizer umas quantas asneiras (ainda bem que a piolha está na casa ao lado),

7 - Dar a ração com margarina e farinha à Essi, lavar a forma.

9 - Essi não quer comer. Guarda a ração para a Magali não comer por duas, unta novamente a forma.

8 - Piolha entra de rompante e grita "mamã a Essi está a vomitar!"

9 - Oh tadinha da Essi, Laura sai, não pises, faz-lhe festinhas, tenho as mãos todas gordurosas, Oh tadinha da Essi!

10 - Lavar mãos, limpar vomitado, dar mimos à Essi (e à Magali que é uma ciumenta fofinha)

11 - Bolo no forno, inventa cobertura, chamar piolha para cortar estrelinhas e fazer bolinhas e fazer cara de mãe má para a Laura parar de comer os enfeites!

12 - Enfeitar o bolo.

13 - Levar um abracinho da Rosa porque está fofinho, levar beijinho da piolha porque é o bolo mais lindo do mundo e levar um abracinho e um beijinho do R. porque fiz o bolo e não o queimei.

Et voilá






terça-feira, 4 de dezembro de 2012

As crianças passam fome porque os pais têm falta de tempo

Eu costumava contribuir para o Banco Alimentar. A minha mãe fazia-o e eu achava que também o devia fazer.
Até que um dia fui a um supermercado comprar fraldas para a minha filha. Um rapazito espetou-me um saco de plástico na cara. Eu disse que não queria, obrigada, e segui caminho. Estava a passar tempos difíceis e todos os tostões contavam. E o raio do puto começa a insultar-me! Que um dia podia ser eu a passar fome, que nunca pensamos nos outros, blá, blá blá, blá. Quando dei por mim, já tinha dado meia volta e já estava de dedo espetado, praticamente enfiado dentro do nariz do miúdo. Gritei com ele, obviamente. Que sabia ele sobre mim? Depois vem de lá um senhor, pediu muitas desculpas, que o miúdo não sabe o que diz, eu resmunguei mais umas coisas do tipo "e formaçãozinha para os voluntários era capaz de ser boa ideia, não?".
Enfim, fiquei capaz de enfiar o raio do saco cabeça-abaixo do raio do puto!

Neste fim de semana fui às compras com a piolha. E novamente espetaram-me um saco de plástico na cara. Levaram com um "Não, obrigada" e eu levei com os olhares reprovadores dos voluntários.

Entretanto a L. perguntou-me porque estavam a dar-me um saco e eu recusei. Não lhe expliquei porque recusei - prefiro que ela decida no que quer acreditar, sem juízos de valor da sua mãe - mas expliquei-lhe o que era o Banco Alimentar.
Prometi-lhe a moeda do carrinho de supermercado quando estivéssemos despachadas e ela ficou muito pensativa, a tentar decidir se guardava a moeda no mealheiro dela ou se comprava comida para entregar ao Banco Alimentar.

Dei-lhe a moeda, ela passou pelos voluntários e foi dar ao rapaz sem pernas que estava ao frio, lá fora.

E eu fiquei estonteada a assistir à cena. Está uma pessoa, ao frio, com fome, com um ar miserável à porta de um supermercado e há gente a brincar às caridadezinhas. Está um ser humano ao frio, com fome, doente, à porta de um supermercado a assistir a toneladas de alimentos a passarem-lhe à frente da cara... Mas aquilo não é para ele... É para outros pobrezinhos. Se calhar, para pobrezinhos com melhor aspecto.

É tudo muito triste, mas só não vê quem não quer. São os empregados dos supermercados que deitam lixívia para cima dos frangos assados que sobram para não terem pessoas a remexerem-lhes o lixo, são voluntários a gabarem-se de terem arroz para o ano inteiro, para não falar nos lucros que as grandes superfícies têm com estas acções... são histórias infindáveis, cruéis, tristes, desumanas.

Eu não pactuo mais com popotas, idiotas ou bancos alimentares. Isso é desresponsabilizar o Estado da sua função social! E não é isso que vai tirar a fome ninguém... lamento. Mas é a pura das verdades. Para mim não é este o caminho.

E esta Jonet coitadinha... sofre do síndrome da terra da fantasia ou coisa parecida. Ou então é mesmo uma atrasada mental.


Roubado do facebook do Rui Zink.


Entretanto o que me vai dando alento é a L. Ainda não percebe a dimensão da podridão do nosso mundo e para ela tudo tem solução. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O que é que se passa comigo? (para a Inês - Parte II)


É que nem posso alegar amnésia, que as cicatrizes ainda estão bem visíveis e acho que foi algo inesquecível.
Então não é que depois do susto do episódio do burro, acabei de assinar um papel para consentir a ida de burros à escola da piolha?
Ainda fiz um “hummmm”, mas ela olhou para mim com olhos de bambi e eu assinei.
Ela deu pulinhos de alegria e abraçou-se a mim.
Eu recordei o drama, as dores e o alívio daquele dia. Como é possível tantos sentimentos num só dia?
Dizia-me o R. que eu ia ficar com cicatrizes nos joelhos. Eu???? Eu sou rija, não sou dessas de ficar com cicatrizes. Mas foi cá uma queda e um arrastão… Foi mesmo violento. Com direito a ficar meio coxa, cheia de dores em todo o lado, com uma cicatriz em cada joelho, do mais feio que possam imaginar e um doutoramento em “como sair do autocarro sem dobrar os joelhos, mas mantendo a pose de que sou uma rapariga séria e só estou um bocado torta por causa do burro alfredo”.

sábado, 24 de novembro de 2012

Bye Bye

No banco de trás estava sempre a cadeirinha da piolha e a varinha mágica cor de arco-íris, com tantas purpurinas, que quando saíamos do carro vínhamos cheias de brilhantes na testa, na ponta do nariz, nas bochechas, nas mãos, em todo o lado!
O segredo era simples. O carro não pegava, eu abria o capô, descalçava as botas, expunha as minhas meias da hello kitty para os vizinhos verem, e contava até 3. Aí ao mesmo tempo que dava uma sapatada na bateria com a bota, a Laura fazia magia com a sua varinha. O carro gemia, eu fechava o capô, dávamos mais cinco para celebrar, girava a chave e vrummmm! A estrada era toda nossa.

Um dia escrevi sobre ele,

pode ter 3947 anos, pode ter fugas de água e pode ter bolor porque lhe chove lá dentro. O fecho centralizado pode só funcionar numa das portas e os auto-rádios explodem e deitam fumo. Pode ter mais mossas que chapa, mais nódoas que estofos. Pode ter criação de formigas e aranhiços e até o podem proibir de circular avenida da liberdade fora porque não tem catalizador. Pode ter vidros eléctricos que se fecham à mão e ursos com barretes de natal no porta-bagagens, porque é o melhor carro do mundo!

Hoje despedi-me dele. A Laura vai ganhar um bom casaco para o Inverno. As boas memórias essam ficam cá. As luas de mel, as idas ao ballet, os chapéus de chuva abertos lá dentro por causa das cascatas que caíam do tejadilho, o brincar ao carrossel em plena rotunda do Marquês de Pombal...

Amanhã vou ter que explicar à melhor filha do mundo que a magia no mundo da mecânica terminou por agora...



terça-feira, 20 de novembro de 2012

Os nossos leitores e leitoras

podiam chegar até nós através de direitos, de greve, de amor, de gajices. Mas não! Os nossos leitores são mega originais! E o que eu me ri!

Um mamo! HAHHAHAHHAHHAHAH




segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Feeling blue


Sou a Vera. Mas durante várias horas dos meus dias sou a mãe da Laura. Há coisas de que não abdico como Vera. Como o meu café e a minha botija de água quente. E há coisas de que não abdico como mãe. Adoro levá-la à escola. Adoro ir buscá-la. Adoro dar-lhe banho, besuntá-la com o creme e pentear aquele cabelo com cheiro a framboesa. A história da noite, entre desejos de sonhos cor de arco-íris e a história da manhã, entre espreguiçadelas, bocejos e beijinhos. Acho engraçado que diferencie as pessoas como cor de rosa, castanhas ou de olhos em bico. Tenho um orgulho tremendo que ofereça a moeda do carrinho do supermercado que lhe dou para ela guardar no seu mealheiro, ao menino sem pernas que está à porta. A Laura é a minha prova de que as crianças não são preconceituosas. Os adultos é que as criam preconceituosas. A minha menina pergunta sempre "tens namorado ou namorada"? Vou-lhe tentando dar as bases para ela ir crescendo. E é fantástica esta visão, de uma menina que já não é um bebé, mas que ainda vai pedindo colinho. Uma menina que já sabe escrever o meu nome. Que já sabe fazer contas e acha divertido lavar o chão. Uma menina que se ri dos rabiscos que fazia quando era bebé. Uma menina que adora música e dança. Uma menina que agradece todos os elogios que lhe fazem e utiliza a expressão, com um sorrisinho malandro "É óbvio, não é?", quando lhe perguntam pelo nome do seu amigo, que se chama amigo. E as gargalhadas dela! Bem! São de outro mundo! Movem montanhas! É a menina mais linda dos meus olhos. É a menina que vou criar neste mundo que neste momento me assusta. Ontem pediu - pela milésima vez - um mano. Eu - pela primeira vez calei-me. Porque senti que isso nunca vai acontecer. Pela primeira vez, senti que desisti. Senti que devia enfrentar o que era óbvio. Senti que este mundo não é um mundo para crianças. Não é saudável, não é feliz, não é humano, é desequilibrado.
Sinto um grito preso na garganta! Deve ser uma pedra da calçada, pronta a disparar. Como é que eu tive uma criança com as coisas no estado caótico em que estão? Claro que tive! E é uma criança extraordinária! Mas e se lhe falta alguma coisa? Obviamente que nunca vai faltar. Mas... e se faltar? Nunca me tinha passado pela cabeça que poderia faltar. Era impensável. É minha filha. Nunca lhe vai faltar nada... Mas... e... tantos mas... Mas eu sou mãe! Nunca lhe há-de faltar nada, nem que isso me mate! Mas...
Fui tentar dormir. Dei voltas e mais voltas na cama. Devo ter dormido umas quatro horas, se tanto. Mas por aqui, durma-se muito ou pouco, não há acordar mal disposto. Acorda-se para a vida!
Aqui há gente que se ama. De verdade!
Matam-me a esperança. Mas eu tenho o resto e o resto é inteiro! É TUDO! Só tenho é que fechar a porta.

Se oiço  "macro-económico" ou "material de suporte" mais alguma vez nos próximos tempos, grito!




quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Para a gente pró-bastonada

Mandem-me um email com a vossa morada que eu entrego aos agentes da autoridade que ontem se portaram tão bem. Assim, antes de cada manifestação, eles batem-vos à porta, partem-vos a cabeça ou uma perninha e depois irão, com certeza, mais calmos para as escadarias de São Bento.
Aí, já que são tão bem ensinados, podem neutralizar a "meia-dúzia de profissionais da agitação" e não varrer a rua de manifestantes pacíficos, espancando-os, perseguindo-os, espalhando o pânico e o caos.
Os relatos de quem lá esteve são impressionantes. As mentiras do Ministro Macedo também.
Como diz a minha querida lolita rosa, da próxima seremos muitos mais!
E vocês que defendem as bastonadas em crianças, idosos, gente em cadeiras de rodas, grávidas, enfim, no povo, ide para o caralho (ou mandem-me um email com as informações que vos pedi!).

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Cara Jonet


Nunca na vida me passou pela cabeça ter que lhe escrever, mas depois de ler tantos comentários a uma intervenção sua num canal de televisão, achei por bem perder a minha meia hora de almoço a ver o vídeo, para me inteirar da situação.
A seguir, assinei com todo o prazer a petição a exigir a sua demissão.
Vamos por partes. Primeiro, nunca conheci ninguém que vivesse acima das suas possibilidades. E olhe que conheço muita gente! Conheço gente que aqui há uns tempos, com o dinheiro que ganhava honestamente, ia ao cinema, ao teatro, a concertos, ia viajar pelos quatro cantos do mundo, ia jantar fora. Uns compraram um portátil. Ou um ipad ou ipod. Também podiam ir tirar radiografias ou tratar das cáries, sem que isso lhes tirasse o bife do prato, ao jantar. Compravam livros e faziam planos para ter filhos, porque viviam consoante as suas possibilidades e, com alguns ajustes, podiam pagar uma creche e um pediatra. Sem roubar nada a ninguém, sem chular ninguém, sem pedir emprestado a ninguém. Com o suor do seu trabalho, lutaram para tentar conquistar os seus sonhos, sejam eles ter filhos ou ter uma televisão de ecrã plano, do tamanho da minha casa. E quem somos nós para julgar?
Segunda questão. A do concerto de rock e as radiografias. Tenho que lhe agradecer por me fazer rir a alto e bom som, ao mesmo tempo que punha a mão na testa e ia murmurando um "eu não acredito nisto!". Então agora é crime ir a concertos? É por ser rock? Se for heavy metal, já é bem visto? Não percebi e não quero acreditar que tenha insinuado que temos que ficar fechados em casa a curtir a depressão da crise. Se calhar quer é proteger-nos, não vá o diabo tecê-las, levar com alguém em cima num moche e ser preciso dinheiro para uma radiografia ao pé torcido, é isso? Pois tenho que informá-la que enquanto vivi com os meus pais, paguei os estudos e algumas despesas da casa com o pouco dinheiro que sobrava. E só não saí do ninho mais cedo, porque precisei de vários exames médicos e tratamentos e sim, realmente era a minha mãe que os pagava. Porque eu não tinha. Às vezes também ia a concertos comigo. Foi ela quem me ensinou como o rock é bom! Foi com essa grande mulher que aprendi também que os cuidados de saúde devem ser gratuitos, porque é mesmo para isso que pagamos impostos. Para que as coisas essenciais não faltem a ninguém.
Terceira questão. A miséria. Não há miséria em Portugal. Não há gente a procurar comida no lixo. Não há gente que come goody (abençoada marca branca do lidl, que o nestum está caro e eu não posso viver acima das minhas possibilidades), para que os filhos possam comer uma refeição de carne ou peixe. E isso não é de louvar. É o que o nosso instinto de mães e pais nos ensina. Que temos que proteger as nossas crianças e fazer com que nunca lhes falte nada, custe o que custar. Mas é triste que tenhamos que chegar a este ponto. É triste que tenhamos que sobreviver em vez de viver. A minha filha, senhora Jonet, tem 5 anos. E dava-lhe cá um baile sobre este assunto.
Quarta questão. Não devia a senhora lutar por erradicar a fome em Portugal, denunciar os casos miseráveis de que tem, com certeza, conhecimento e não andar a gabar-se por andar a alimentar pieguinhas que gostavam de comer bifes todos os dias?
Quinta questão. É preciso ir a sua casa dar uma lição a si e aos seus sobre bons comportamentos ambientais? E de como a defesa do meio ambiente nos torna melhores pessoas? Pelos menos, activas, atentas e preocupadas?
Resumindo, a senhora é uma ursa. Tem a sensibilidade de um pionés e a noção da realidade de um grão de areia.
Realmente fico uma jóia de pessoa quando cagam sentenças sobre como devo gerir as minhas finanças, como devo engolir o roubo de que sou alvo por parte deste (des)governo corrupto e sobre o que devo comer ao jantar.

sobre a greve de amanhã

costumo escrever sempre um texto de apelo à greve. desta vez deixo as palavras de um poeta meu.

RIFÃO QUOTIDIANO

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

 
Mário Henrique-Leiria
 

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Esta dívida não é nossa!


Foi esta casa que me acolheu quando a minha mãe morreu. Foi aqui que recuperei de grandes perdas e me ergui novamente. Foi aqui que a Laura nasceu, sorriu pela primeira vez, comeu a primeira papa e a primeira sopa, a primeira bolacha maria, disse as primeiras palavras e aprendeu o que é o amor. Foi aqui que começámos, com estantes feitas de pedras da calçada e um quintal cheio de lixo e ratazanas.

Não me quero separar do jacarandá que plantámos para celebrar 1 ano de vida da nossa menina. Nem do baloiço preso no ramo da árvore que nos cobre o céu. Nem da chuva que cai dentro da marquise. Nem do chão arranhado pela Essi, de cada vez que os senhores da Dica da semana nos tocam à campaínha, ou a Ísis - a cadela do andar de cima - desce as escadas.
Amo de cada polaroid descolada da parede da entrada. Amo cada azulejo partido e que a Laura com a ponta do pé, vai arrumando, como uma peça de um puzzle. Gosto da luz que entra pelo quarto e de ver a chuva a lavar as ruas, deitada na cama. Gosto dos tectos altos e do cheiro a baunilha. Gosto de cada falha nos vidros com vista para o quintal.

Não estou disposta a abdicar disto! A deixar a casa onde a minha filha me diz tantas vezes "sou tão feliz aqui!".

Não estou disposta a trocar o peixe da minha filha por nestum, nem a sua felicidade, por causa de uma dívida que não é a minha. Recuso-me a alimentar estes abutres e a viver das suas caridadezinhas!

Agora que já despejei aqui a minha pieguice, este orçamento de estado parece uma anedota. O governo PSD/CDS e o PS como oposição é outra anedota. Porque é demasiado ridículo para ser verdade. É demasiado triste! Tirarem as migalhas a quem já nem um papo-seco tinha em condições é demasiado cruel. É demasiado violento.

Alimentação, habitação, saúde e educação não é um favor que o Estado nos faz. É um direito nosso e do qual não devemos nem podemos abdicar!

O meu GRITO é a minha GREVE!

Por mim, por ti, pelos nossos filhos, pais, avós, irmãos, cães, gatos, piriquitos, vamos parar o país dia 14! E esta austeridade que só leva à miséria!



quarta-feira, 7 de novembro de 2012